Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

Um carro, uma barata

Um pequeno conto, uma grande saga.

18/01/2008
2:12am
Arrumo minhas coisas e saio da sala. Apago todas as luzes e saio pra chuva. Ando até o carro, abro a porta rapidamente e antes que meus músculos se mexam, meus olhos detectam um movimento inconfundível no chão do carro. Uma graciosa barata. No chão do carro, na chuva. Uma barata.

2:13am
Tiro o pequeno trambolho que uso no pé, também chamado de papete, e tento acertar a bichinha. Sem sucesso, a papete é grande o espaço é pequeno. A barata foge por baixo do banco do motorista até o chão do banco de trás. Levanto o banco e tento a segunda vez. Sem sucesso. Ela volta rapidamente para o chão do motorista e para minha agonia desaparece nos pedais do carro. Desaparece. Bati e rebati no chão, embaixo do volante e nada. A chuva.

2:15am
Ponho a papete e entro no carro. Piso nos pedais. Nada da barata. O caminho para casa foi longo. Se ela aparecesse nas minhas canelas eu estaria preparado, esperaria uma reta, e com a mão lhe jogaria pela janela. Claro.

2:25am
Chego em casa. Nada ainda. Balanço todo o carro e nada. Retiro todos os restos de comida que encontro, incluindo bombons de chocolate. Jogo-os no lixo, subo as escadas, abro a porta e lá está. Uma barata. no chão da sala. Anda de um jeito esquisito, não sei. Desvio com cuidado e com pés de plumas atravesso a sala até o spray. Volto até a condenada e em milissegundos a barata está no meio de uma tempestade de veneno. Ela dá dois passos contra o vento e bate as botas, quase instantaneamente. O chão embaixo começa a derreter. Vou dormir um pouco mais limpo.

8:00am
Luz. Barata. Spray?. Nah. Vou para o carro e nada. Barata, nada. Spray? Nah. Trabalho.

19/01/2008

2:04am
Aff... trabalho.

2:40am
Casa. Casa. Casa. Porta. Luz. Carro. Barata. Inacreditável. Mal abro a porta e a danada some nos pedais de novo. Spray? A revolta com as baratas. Casa, rápido.

2:52am
Casa. Nada de barata. Escada, porta, sala sem barata. Espero meia hora para ela achar que tinha ido dormir. Spray? É a hora.

3:21am
Carro. Abri a porta devagar... nada. Faço um pouco de barulho. Nada. Banco de trás. No chão. HÁ! Aperto o botão com força o bicho sobe um pedaço do banco e é derrubado pelo ar. O guia no chão fica molhado. A barata desaparece embaixo do banco do motorista... Devagar tirando o tapete de plástico e... nada.

3:28am
Passos! Pequenos passos. Onde? Logo em cima da cabeça, na borracha da porta. Mais veneno. Baratas tendem a cair em ambientes fechados. Num ato suicida a barata pula para o chão do banco de trás do motorista, quica e desaparece no chão ao lado, dentro do carro. Paciência se esgotando.

3:34am
Porta do passageiro aberta. Mais passos. Dessa vez vindos de fora. Também levaram veneno. Num piscar de olhos ela se materializa no chão do carro, já cambaleando, e perece com suas traquéias entupidas com veneno. Morre em cima de um pequeno panfleto imobiliário. Nunca me senti tão bem. Pequeno panfleto & Cia conhecem o lixo.

3:40am
O carro recebe uma boa dose de veneno. Todas as frestas. As companheiras da rua também. O spray acaba. A saga termina.

3 comentários:

Flávio disse...

Vou falar pra você que esse conto não me surpreende...
E não só... Já esperaria pela segunda parte da saga!
Seu carro não é mais seu... É delas, sim! Das famigeradas cascudas!!!
Aliás, grande conto!
Abraço

Ninja disse...

depois dessa vc vai lavar o carro, né?

Pigozzo disse...

Da forma que está seu carro, acho que baratas são os menores de seus problemas.