Bicicletas em São Paulo

Post com co-autoria da Ju!

biciplacaUsar a bicicleta como meio de transporte em São Paulo é perfeitamente possível. Porém, não é uma tarefa trivial como deveria ser. Depende muito do trajeto que você fizer. Alguns são bem tranquilos, outros podem ter lugares mais difíceis ou perigosos. Para se virar bem no trânsito e correr menos riscos é necessário um pouco de prática e, infelizmente, às vezes uma dose de sangue frio. O primeiro passo é conhecer os direitos e deveres dos ciclistas no trânsito. O Código de Trânsito Brasileiro reconhece oficialmente a bicicleta como um veículo de transporte de propulsão humana (não-motorizado) e dispõe uma série de regulamentações; veja um bom resumo comentado dos artigos relacionados com bicicletas. O ciclista, por exemplo, deve andar na via pelo sentido correto e nunca trafegar pela calçada, a não ser quando orientado por um agente de trânsito; lembrando que o pedestre tem prioridade sobre o ciclista. O deslocamento deve ser feito por um dos bordos da via (direito ou esquerdo) e o ciclista deve respeitar a sinalização de trânsito, incluindo semáforos! Por sua vez as bicicletas têm total preferência sobre veículos motorizados. Estes devem dar passagem para os ciclistas e quando forem ultrapassá-los manter uma distância lateral segura, que no caso é 1,5 m. Além disso, os carros devem reduzir a velocidade ao ultrapassar um ciclista.

Compartilhe a rua A distância lateral e a redução de velocidade são pontos críticos do trânsito de São Paulo, e os que certamente mais assustam os ciclistas urbanos. Como sustos ativam o cérebro, várias vezes me peguei pensando por que os motoristas fazem isso. Depois de uma fina a primeira palavra que vem na cabeça é assassino. Mas será que os motoristas são realmente “maus” ou insensíveis a ponto de ameaçar a vida de uma pessoa simplesmente para chegar primeiro no próximo semáforo fechado?

Não é preciso observar muito para verificar que o trânsito em SP é extremamente hostil. Centenas de “acidentes” e brigas ocorrem diariamente entre motoristas e normalmente sobra para os não-enlatados: morrem 2 pedestres por dia (!) na cidade. A interação automóvel-automóvel é ríspida, apertada e muitas vezes em velocidades sobre-humanas. Pense numa ultrapassagem, se você passar a 30 cm de outro carro, mesmo com uma velocidade razoável, você não vai sentir calafrios ou ameaçar a vida do outro motorista. Você só precisa garantir que não encostará no outro veículo (de modo algum! afinal, parece que um arranhão ou amassado na lataria vale mais que uma vida). Agora, imagine um monstro de toneladas passando a poucos centímetros do seu guidão…

Foto por ???
Não descobri o autor...

Em ruas dominadas por automóveis, o motorista está acostumado a interagir somente com outros automóveis. Quando surge um elemento diferente (i.e. a bicicleta) o motorista simplesmente trata como se fosse um outro automóvel. Em outras palavras, falta vivência e costume de interagir com ciclistas. Das vezes que falei com motoristas que tiraram lasquinhas de mim, a maioria claramente não o fez por maldade, mas por inconsequência. Uns acham que não passaram perto, outros apenas mediram o suficiente para não te acertar, e tem aqueles que estão tão absortos em chegar no destino com a maior eficiência possível que nem veem que no meio da pista tem um ser vivo. Todos com quem falei fizeram uma segunda ultrapassagem com segurança.

O motorista paulistano precisa de um pouco de consciência e se colocar do outro lado. Na prática dá medo ser ultrapassado de raspão por um carro a 70 km/h, sério. Não é algo que quero vivenciar ao sair de casa. Talvez a estratégia mais eficiente para mudar isso seja aumentar as interações automóveis-bicicletas, na prática. Na verdade, alguns estudos já verificaram que em locais onde o número de ciclistas é maior, o número de acidentes entre carros e ciclistas é menor (ver o mais recente no Reino Unido e um mais abrangente de 2003). Assim, para aumentar a segurança, precisamos aumentar o número de ciclistas nas ruas. E bicicletas não faltam: 1/3 das famílias da região metropolitana de São Paulo possuem ao menos 1 bicicleta em casa segundo a pesquisa “Origem e Destino” do Metrô de 2007.

Ponte João Dias - Foto André Pasqualini
Ponte João Dias - Foto André Pasqualini

Um requerimento básico e essencial é a existência de um planejamento cicloviário. Até hoje inexistente, a maioria das ruas da cidade de São Paulo prevê apenas o fluxo de automóveis, diminuindo a segurança e conforto do ciclista. As pontes são ótimos exemplos de inadequação cicloviária (péssimas para pedestres também); não existe sinalização adequada para ciclistas, carros acima do limite de velocidade e é preciso disputar um espaço nas faixas para conseguir atravessar a ponte sem ser atropelado pelos automóveis que querem acessar as alças à direita. Mesmo assim o governo insiste em construir novas pontes exclusivas para carros particulares (nem ônibus pode – vide a ponte estaiada), quando deveriam, por lei, prever a circulação de bicicletas e pedestres. E pelo jeito as pontes da Nova Marginal vão ter o mesmo destino… além da futura melhoria no trânsito da região ser duvidosa.

caos
Foto Rafael Brusque

O caos motorizado faz parte do cotidiano de São Paulo. Diariamente formam-se centenas de km de “filas” de automóveis, de manhã, à tarde e à noite. Um trajeto de 15 minutos vira 1h30 para o motorista que quer chegar em casa. Um trajeto de 15 minutos para um ciclista durante um congestionamento continua sendo de ~15 minutos. Na maioria das ruas pedalar com um trânsito parado é até mais seguro para os ciclistas que, sem esforço, podem ultrapassar centenas de carros em poucos minutos. Contudo, o excesso de veículos causam sérios problemas de saúde, como doenças respiratórias e estresse, além de aumentar o tempo perdido e gasto de combustível. Só para tratar de doenças respiratórias e cardiovasculares ligadas a poluição são gastos R$ 14,00 por segundo. A edição de agosto da revista Desafios do Desenvolvimento do IPEA discute ainda outros aspectos dos custos da priorização do transporte individual; as estimativas são assombrosas. Parece estar mais que na cara que alguma providência efetiva precisa ser tomada.

Apesar do caos instalado, algumas ações, ainda tímidas, mostraram que pode existir uma luzica no fim do túnel (para os ciclistas urbanos). Em 2007, por exemplo, entraram em operação os bicicletários do metrô e as bicicletas passaram a serem aceitas nos vagões (apenas finais de semana e a noite nos dias úteis). Outra mudança importante foi a transferência da coodernadoria das bicicletas na cidade da Secretaria do Verde para a Secretaria dos Transportes em julho deste ano, que pode, teoricamente, facilitar as ações pró-bicicletas, já que a Secretaria do Verde não tinha autonomia para levar adiante os projetos. Quem sabe agora o Sistema Cicloviário (Lei n°14.266) que entrou em vigor em fevereiro de 2007 comece a ser posto em prática.

Infelizmente as políticas de incentivo às bicicletas como meio de transporte na cidade de São Paulo andam a passos lentos. A ciclovia da Radial Leste, inaugurada em setembro de 2008 (1 ano após sua oficialização), ainda não foi acabada, assim como os 397 km de ciclovias e ciclofaixas permanentes previstas para 2012 que ainda nem começaram. Enquanto isso as obras favorecendo o transporte individual motorizado são feitas em tempo recorde (estou falando da nova marginal).

pira16072006

Mesmo com ações públicas nulas e décadas de desenvolvimento econômico movido pela indústria automobilística, a bicicleta está cada vez mais presente no cenário urbano de São Paulo. A pesquisa “Origem e Destino” do metrô de 2007, mostrou que o número de viagens diárias feitas de bicicleta saltou de 160 mil, em 1997, para 345 mil no ano de 2007. Cerca de 71 % dessas viagens, nos dias úteis, foram deslocamentos para o trabalho. Apesar da insistência de alguns de que os ciclistas só estarão seguros quando houver ciclovias por todo lado (isolando-os dos carros), acreditamos que uma convivência pacífica entre bicicletas e automóveis é a saída mais eficaz e eventualmente acontecerá. Ciclovias são importantes em vias de fluxo rápido (grandes avenidas e tal), mas não são a solução para a segurança dos ciclistas. Não dá pra construir ciclovia em todas as ruas da cidade. As ruas estão aí para serem compartilhadas, só é uma questão de oficializar, na prática (no papel já é oficial, faz tempo), a convivência (proteção e respeito mútuos). Enquanto isso, pequenas ações vão fazendo a diferença para a segurança dos ciclistas, como palestras para motoristas de ônibus sobre o convívio com bicicletas.

A bicicleta pode não resolver os problemas de mobilidade urbana em São Paulo (priorização do transporte público é o principal), mas é ótima alternativa para substituir o carro em diversos tipos de deslocamentos na cidade. Além de possibilitar um contato mais direto com a cidade, a bicicleta é muito mais eficiente e limpa que um automóvel para transportar uma pessoa. Na situação calamitosa do ar de São Paulo, e pensando nos gastos decorrentes de doenças respiratórias diretamente relacionadas com a poluição motorizada, fica difícil negar que precisamos de alternativas. A questão não é abandonar o carro, mas usá-lo com moderação.

Apesar da situação não-ideal, deslocar-se de bicicleta não é tão perigoso quanto pode parecer, especialmente conhecendo os direitos e deveres e seguindo algumas dicas para ciclistas urbanos (série de posts). Claro que esse julgamento é pessoal, só pedalando pra ver.

Então cabe aos motoristas lembrar que aquilo sobre a bicicleta é uma pessoa, com vida, família e amigos, e que quer apenas chegar tranquila no seu destino. Ela não é um obstáculo, mas um carro a menos nas ruas. Buzinar não faz o ciclista desaparecer, mas buzinadinhas de apoio ou alegria fazem o ciclista sorrir e pedalar mais feliz :D Alguns centímetros fazem toda a diferença quando se está se equilibrando sobre duas rodas, portanto, respeito da distância mínima de 1,5 m e velocidade moderada durante ultrapassagens são essenciais.

Por fim, segue uma entrevista bastante completa sobre o tema com o autor do blog Apocalipse Motorizado. Vale a pena assistir.

3 opiniões sobre “Bicicletas em São Paulo”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>