Textículo (comentem!)

Um mini-texto para relaxar da overdose de vídeos…

Invólucros

Telefones celulares, agendas eletrônicas e computadores portáteis cada vez mais compactos, e portanto com teclas cada vez menores, pressupõem usuários com dedos finos. Se vale a teoria da seleção natural de Darwin, as pessoas com dedos grossos se tornarão obsoletas, não se adaptarão ao mundo da micro-tecnologia e logo desaparecerão. E os dedos finos dominarão a Terra. Há quem diga que, como os mini-teclados impossibilitam a datilografia tradicional, com o advento das calculadoras, os cinco dedos em cada mão perderam a sua outra utilidade prática, que era ajudar a contar até dez, os humanos do futuro nascerão só com três dedos em cada mão: o indicador para digitar (e para indicar, claro), o dedão opositor para poder segurar as coisas e o mindinho para limpar o ouvido.

Outra inevitável evolução humana será a pessoal já nascer com um dispositivo – talvez um dente adicional, cuneiforme, na frente – para desembrulhar CDs e outras coisas envoltas com celofane, como quase tudo hoje em dia. E fiquei pensando no enorme aperfeiçoamento que seria se as próprias pessoas viessem envoltas numa espécie de celofane em vez de pele. Imagine as vantagens que isso traria. No lugar de derme e epiderme, uma pele transparente que permitisse enxergar todos nossos órgãos internos, tornando dispensáveis o raio-x e outras formas de nos ver por dentro. Bastaria o paciente tirar a roupa para o médico olhar através da sua pele e dar o diagnóstico, sem precisar apalpar ou pedir exames.

Está certo, seríamos horrorosos. Em compensação, a pele transparente seria um grande equalizador social. “Beleza interior” adquiriria um novo sentido e ninguém seria muito mais bonito que ninguém, embora alguns pudessem ostentar um baço mais bem acabado ou um intestino delgado mais estético, e o corpo de mulheres com pouca roupa ainda continuassem a receber elogios (“Que vesícula!”). acabaria a inveja que as mulheres têm, uma da pele das outras, e a conseqüente necessidade de peelings, liftings, botox, etc. e como todas as peles teriam a mesma cor – cor nenhuma – estaria provado que somos todos iguais sob os nossos invólucros, e não existiria racismo.

Fica a sugestão, para quando nos redesenharem.

Luiz Fernando Verissimo

Publicado no Correio Popular de Campinas no dia 28/01/07, sugerido pela Ju!

Um comentário em “Textículo (comentem!)”

  1. Nós somos na verdade a prova de que o homem foi conduzido pela evolução feminina, ou seja, Deus é mulher (ou Maria Madalena é quem manda na casa). Se Deus fosse homem, nós teríamos muito menos estética e muito mais praticidade.
    Porém, no contexto atual, estou satisfeito como as coisas estão sendo conduzidas. Creio que quando ficar velho e deixar de errar a mira para trás da privada e começar a errar acertando no pé isso não será mais relevante e vou dar mais valor a praticidade.

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